Ando ausente do mundo, como uma sombra em noite de Lua nova.
Ao meu redor apenas o breu, e de mim apenas escuridão. Os dias para mim são de trovoada, pesados e barulhentos, tristes e com o céu a desfazer-se em pedaços por aqui e ali.
A chuva que me inunda o caminho não me molha, mas disfarça as minhas lágrimas.
Fiz da tristeza o meu ecossistema. Negra é agora a cor dos meus dois lados.
Como cheguei a este ponto pergunto-me eu e já quase me esqueço da razão, que na verdade não tem razão de ser.
Um dia, há muito tempo, ou há pouco, já não o sei, porque o calendário deixou de o ser em mim, uma criança passou por mim a chorar.
Por ela estanquei o meu passo e segurei-a forçosamente pelo braço.
A sua rota roupa e a sua suja cara, cicatrizada de lágrimas recentes a escorrer pela sujidade da sua pele fizeram-me pena.
Recordo-me agora que lhe perguntei porque estava tão suja e pela mãe.
Ela não respondeu com palavras, limitou-se a agarrar o meu pescoço com tanta força quanto podia.
Ainda mal sentia o abraço da criança e já sentia uma forte pancada na nuca. Contorci-me em dores e vi a cara do meu agressor. Uma senhora de jovem idade, olhos encovados, cabelos negros oleosos e em desalinho. Um joelho esfolado e uma expressão resumiam aquela pessoa qua ainda mantinha a arma no punho fachado. Um maço de alvenaria.
Revi o maço bem de perto, perto demais e adormeci de um baque.
Quando abri de novo os olhos o chão brutalizava-me as costas, enquanto na cabeça me latejava a dor.
Tentei içar o peso do meu corpo pelos membros e a custo consegui.
Quando, de pernas trémulas tentei entender o "onde" o "quando" e "porquê" vi que ao meu lado esteve deitada a tal criança de sexo indefinido.
O chão que para mim fora doloroso era para ela escarlate. Quis restituir o abraço, e quanto mais me aproximava mais sentia o frio e o cheiro férreo a sangue.
A seu lado, vil arma, o maço. Toquei-lhe. Estava fria de morte... DE MORTE.
A criança estava morta, suja e rota.
O seu pequeno e infeliz crânio aberto de lado. O sangue na têmpora era acastanhado e seco. As palmas das mãos, amareladas, estavam viradas para o céu, e um sorriso bailava ainda no seu rosto.
Parecia feliz aquele morto, aquela criança ali morta, violentamente morta.
Voltei a levantar-me, apoiando-me no joelho.
Não me preocupei, afinal de contas aquela criança não era minha. Deixei-a morta na estrada, com o seu sorriso mortificante e mortificado.
Agarrei no maço e guardei-o na manga do casaco.
Assim que dei um passo a chuva lavou a criança, o chão e molhou-me o tutano.
Amaldiçoei o abraço. Não fosse ele eu estava seco em frente a um balcão de um qualquer bar a beber um whisky de malte (o meu preferido) e a ver a bola.
Aquele maço era agora a minha vingança.
Desde esse dia escondido na manga do meu casaco.
Amaldiçoei-me por causa da minha compaixão. A minha própria maldição trouxe-me o Inverno só para mim.
Hoje, a sós com a chuva indiferente para mim encontro o fim da maldição.
À minha frente a figura com as pernas escalavradas e com o olhar tão negro quanto o seu cabelo. Parada, de pernas abertas, a chuva caía-lhe lentamente pelo vestido negro em forma de gotas.
Agarrei fortemente o cabo da vil arma. Passo a lente passo aproximei-me dela. Ela nem um movimento.
Levantei o maço a meia altura e chamei-lhe Morte. Pedi, misericordiamente, que guardasse enfim a sua arma.
Ela, em movimentos estudados durante eternidades, levantou a sua magra e pesada mão e aceitou-a de volta.
O Sol (ou seria a Lua?) tornou a aparecer-me diante.
O baque que outrora dolorosamente me adormeceu agora voltou.
O maço acabou o seu trabalho e matou-me ali mesmo.
O sorriso apoderou-se de mim, morto, e o brilho dos meus olhos voltou por instantes.
A minha maldição acabou e eu posso descansar, em fim e em paz.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Um dia tudo muda
Disseste-me: "Um dia tudo muda" e eu disse "Isso é difícil, o tempo é curto".
Mas tu sabias do que falavas. E eu não acreditei ou não quis crer.
Nesse dia um turbilhão de nada aconteceu.
Enquanto esperava por ti nada tinha que fazer.
Despreocupado porque a hora estava marcada sentei-me algures no parapeito do rio e olhei o vazio.
Tinha um livro na mala e um bolo no bolso. Mas nem fome de letras nem vontade de comer me apareceu. Continuei inerte e sereno no vazio da água brilhante ao reflexo da luz fugidia por entre nuvens passageiras.
Olhei para o relógio sem perguntar as horas. Li decor as horas e estava quase.
Despreocupado continuei. Tu irias estacionar o carro perto e ligar-me a dizer o teu paradeiro. Eu caminha até ti algo nervoso, como sempre e desde sempre e tu fazias que não me vias pelo canto do olho. À distância medida pelo vidro tu irias levantar a cabeça e sorrir apenas porque sim.
A hora chegou e tu não telefonaste. Durante 3 minutos pensei que era o trânsito.
Passado os 3 minutos liguei-te e não atendeste.
Preocupei-me por ti e por mim.
Corri e acorri aos locais do costume e tu não estavas.
O sangue que tinha na cara começou a esfriar e o suor começou a suar.
Voltei ao meu poiso, agora em brasas. O calor que me transmitia era tal que não me sentava sossegado.
Impaciente senti umas mãos quentes e calmas no meu pescoço e uma risada infantil.
Eras tu que pela primeira vez me encontraste e não esperaste que eu fosse ao teu encontro.
Hoje, ao contrário do beijo quente sentaste-te a meu lado ainda mais ardente.
O calor do assento tornou-se tépido e o meu braço direito quis sentir o novo calor, o teu calor.
Olhei-te, o sorriso medido do vidro soergueu-se sem muralhas e tiraste o meu braço do teu ombro. Fizeste-o descansar na pedra fria do parapeito sobre o rio e descansaste a tua mão sobre o mindinho dela.
Um dia tudo muda, e hoje foi o dia.
Hoje tudo ficou na mesma mas tudo mudou.
Os teus olhos assim mo disseram, sem palavras. Apenas o brilhar de estrelas no brilhozinho dos olhos.
Afinal de contas... A nossa vida é feita de pequenos nadas. . .´
"Tudo é relativo, salvo o infinito." - Duque de Lévis
http://www.youtube.com/watch?v=qq9gKIqBO_E
Mas tu sabias do que falavas. E eu não acreditei ou não quis crer.
Nesse dia um turbilhão de nada aconteceu.
Enquanto esperava por ti nada tinha que fazer.
Despreocupado porque a hora estava marcada sentei-me algures no parapeito do rio e olhei o vazio.
Tinha um livro na mala e um bolo no bolso. Mas nem fome de letras nem vontade de comer me apareceu. Continuei inerte e sereno no vazio da água brilhante ao reflexo da luz fugidia por entre nuvens passageiras.
Olhei para o relógio sem perguntar as horas. Li decor as horas e estava quase.
Despreocupado continuei. Tu irias estacionar o carro perto e ligar-me a dizer o teu paradeiro. Eu caminha até ti algo nervoso, como sempre e desde sempre e tu fazias que não me vias pelo canto do olho. À distância medida pelo vidro tu irias levantar a cabeça e sorrir apenas porque sim.
A hora chegou e tu não telefonaste. Durante 3 minutos pensei que era o trânsito.
Passado os 3 minutos liguei-te e não atendeste.
Preocupei-me por ti e por mim.
Corri e acorri aos locais do costume e tu não estavas.
O sangue que tinha na cara começou a esfriar e o suor começou a suar.
Voltei ao meu poiso, agora em brasas. O calor que me transmitia era tal que não me sentava sossegado.
Impaciente senti umas mãos quentes e calmas no meu pescoço e uma risada infantil.
Eras tu que pela primeira vez me encontraste e não esperaste que eu fosse ao teu encontro.
Hoje, ao contrário do beijo quente sentaste-te a meu lado ainda mais ardente.
O calor do assento tornou-se tépido e o meu braço direito quis sentir o novo calor, o teu calor.
Olhei-te, o sorriso medido do vidro soergueu-se sem muralhas e tiraste o meu braço do teu ombro. Fizeste-o descansar na pedra fria do parapeito sobre o rio e descansaste a tua mão sobre o mindinho dela.
Um dia tudo muda, e hoje foi o dia.
Hoje tudo ficou na mesma mas tudo mudou.
Os teus olhos assim mo disseram, sem palavras. Apenas o brilhar de estrelas no brilhozinho dos olhos.
Afinal de contas... A nossa vida é feita de pequenos nadas. . .´
"Tudo é relativo, salvo o infinito." - Duque de Lévis
http://www.youtube.com/watch?v=qq9gKIqBO_E
sábado, 6 de agosto de 2011
Jesus Antunes
Vou-vos contar a minha história.
Na verdade não é a minha história, é antes um pedaço da minha história.
Na realidade são apenas pedaços despegados da minha vivência.
Eu nasci um dia antes do dia marcado. Nasci marcado de homem que viria a ser.
A partir desse mesmo dia fui perseguido.
Perseguido por ditadores com medo de perderem o poder e com eles algo que eles tomaram deles, como nós tomamos por nosso a roupa que trazemos ou o corte de cabelo que nos fazem.
Os meus pais esconderam-me por entre lendas e ovelhas.
Gente rica, mas gentia, acorreu até mim. Depositavam as suas esperanças e riquezas em mim. Depois deles gente pobre me queria ver e adorar. Despojaram-se das suas pobrezas por mim, sem que eu alguma vez lhe tivesse pedido algo.
Durante largos anos da minha vida nada mais se soube. Nem o onde, nem o com quem, nem o quê. Eu digo-vos: também eu não sei, porque de tanto ouvir e ver a minha história eu já nem sei quem fui ou quem sou.
Aos 30 anos (diz-se, mas o dizer anda pelas ruas, já dizia o meu avô David), recomeçaram-me a escrever.
Como destino que me foi traçado pelo meu Pai e não pelo meu pai, continuei a ser persguido quase tanto como ouvido e adorado.
A medo fui-me treinando com os ditadores que outrora me perseguiram e soube aprender a falar às gentes.
Falei em feiras, em santuários, em montes (brilhantemente, deixem que vos diga, e com honestidade). Mandei levantar paralíticos e mortos renascer.
Quando os senhores me acharam muito mais que uma pedra no sapato, fui acusado de algo que nem sei bem o quê e traído (ou salvo? ou amado?) por um dos meus cavaleiros da távola redonda, um dos meus doze deuses do Olimpo, uma das minhas doze deídades do Antigo Egipto.
Três dias estava morto na cruz. "O Redentor, o Messias", diziam eles a meus pés, "está morto".
Antes da minha hora berrei, como um bezerro que não descobre a mãe entre as outras vacas: "Pai, porque me abandonas?" .O meu sacrifício deu-se então(sim, um sacrifício mortal, morri sacrificado, e as gentes aceitam isso enquanto eu o lutei. Fui apenas mais um cordeiro, no fundo e desde o início).
Hoje, passadas duas noites e cerca de dois mil anos da minha morte eu sei a razão do teu abandono Pai: o meu sacrifício não foi suficiente, e tu, cobarde, na tua omnipotência e grandiosidade sabia-lo e abandonaste-me.
Eu, cordeiro de deus, morri ingloriamente. Eu, O cordeiro de deus, morri em vão.
A minha história é essa.
Hoje, depois da ressurreição, sou o Antunes da repartição das finanças de Degolados, e salvo o país da bancarrota. Vão esforço o do Messias.
"Seja no que for, apenas poderemos ser julgados pelos nossos pares." - Balzac
http://www.youtube.com/watch?v=B6g7SWqbPzk&feature=related
Na verdade não é a minha história, é antes um pedaço da minha história.
Na realidade são apenas pedaços despegados da minha vivência.
Eu nasci um dia antes do dia marcado. Nasci marcado de homem que viria a ser.
A partir desse mesmo dia fui perseguido.
Perseguido por ditadores com medo de perderem o poder e com eles algo que eles tomaram deles, como nós tomamos por nosso a roupa que trazemos ou o corte de cabelo que nos fazem.
Os meus pais esconderam-me por entre lendas e ovelhas.
Gente rica, mas gentia, acorreu até mim. Depositavam as suas esperanças e riquezas em mim. Depois deles gente pobre me queria ver e adorar. Despojaram-se das suas pobrezas por mim, sem que eu alguma vez lhe tivesse pedido algo.
Durante largos anos da minha vida nada mais se soube. Nem o onde, nem o com quem, nem o quê. Eu digo-vos: também eu não sei, porque de tanto ouvir e ver a minha história eu já nem sei quem fui ou quem sou.
Aos 30 anos (diz-se, mas o dizer anda pelas ruas, já dizia o meu avô David), recomeçaram-me a escrever.
Como destino que me foi traçado pelo meu Pai e não pelo meu pai, continuei a ser persguido quase tanto como ouvido e adorado.
A medo fui-me treinando com os ditadores que outrora me perseguiram e soube aprender a falar às gentes.
Falei em feiras, em santuários, em montes (brilhantemente, deixem que vos diga, e com honestidade). Mandei levantar paralíticos e mortos renascer.
Quando os senhores me acharam muito mais que uma pedra no sapato, fui acusado de algo que nem sei bem o quê e traído (ou salvo? ou amado?) por um dos meus cavaleiros da távola redonda, um dos meus doze deuses do Olimpo, uma das minhas doze deídades do Antigo Egipto.
Três dias estava morto na cruz. "O Redentor, o Messias", diziam eles a meus pés, "está morto".
Antes da minha hora berrei, como um bezerro que não descobre a mãe entre as outras vacas: "Pai, porque me abandonas?" .O meu sacrifício deu-se então(sim, um sacrifício mortal, morri sacrificado, e as gentes aceitam isso enquanto eu o lutei. Fui apenas mais um cordeiro, no fundo e desde o início).
Hoje, passadas duas noites e cerca de dois mil anos da minha morte eu sei a razão do teu abandono Pai: o meu sacrifício não foi suficiente, e tu, cobarde, na tua omnipotência e grandiosidade sabia-lo e abandonaste-me.
Eu, cordeiro de deus, morri ingloriamente. Eu, O cordeiro de deus, morri em vão.
A minha história é essa.
Hoje, depois da ressurreição, sou o Antunes da repartição das finanças de Degolados, e salvo o país da bancarrota. Vão esforço o do Messias.
"Seja no que for, apenas poderemos ser julgados pelos nossos pares." - Balzac
http://www.youtube.com/watch?v=B6g7SWqbPzk&feature=related
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Rei Sadim
A minha mãe disse-me ao dia de vida que eu tinha um dom. Não que eu me recorde de tal ditame, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
A minha mãe morreu 3 dias após o meu parto.
A minha mãe tinha razão. Também ela tinha o seu dom. O seu dom era o da adivinhação. Não que eu o recorde, porque o meu dom não é o da memória, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Hoje, de cada vez que oiço isto, mando cortar-lhe logo a língua.
A minha mãe morreu porque sabia o meu dom. Tinha-o adivinhado. E eu perdoo-a por tal, também eu mal me suporto.
O meu dom é a pestilência, o azedume, a podridão, todos num só. E por estes, a fome e mudez de muita gente.
Eu nasci ao contrário, com os pés virados para a lua e a cabeça para o ventre.
enquanto crescia, de luvas na mão, corria de costas e ainda hoje ando ao revés.
As palavras escrevo-as da esquerda para a direita, enquanto a minha arabidade me obriga ao inverso.
O meu nome foi escolhido às cegas disso.
Desde o primeiro dia em que falei e disse "Rei", que tudo o que toco se estraga ou morre.
Disse Rei e abracei o meu pai. Não que eu me recorde de tal ditame, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Repeti "Rei" e acrescentei balbuciando "Midas", e o meu abraço fez o meu pai frio e roxo. Os olhos tornaram-se cristal negro.
Gritou-se "rei morto, Rei posto", Não que eu me recorde de tal ditame, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Eu fui assim rei. eu sou assim rei. o Rei Sadim, aquele que mata o vivo em que toca e que estraga a comida em que toca.
É este o meu dom, tornar o mundo um local enjoado e enojado.
É este o meu dom, não sentir o toque da minha rainha.
É este o meu dom, não sentir o pelo dos meus cães.
É este o meu dom, não sentir com as mãos, e ser cego mesmo vendo.
É este o meu fado, um mouro encantado, que pouco tem de encanto.
É este o meu fado, ser Midas ao contrário
"Nem tudo o que reluz é ouro"
http://www.youtube.com/watch?v=AhxVx8fskMo
A minha mãe morreu 3 dias após o meu parto.
A minha mãe tinha razão. Também ela tinha o seu dom. O seu dom era o da adivinhação. Não que eu o recorde, porque o meu dom não é o da memória, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Hoje, de cada vez que oiço isto, mando cortar-lhe logo a língua.
A minha mãe morreu porque sabia o meu dom. Tinha-o adivinhado. E eu perdoo-a por tal, também eu mal me suporto.
O meu dom é a pestilência, o azedume, a podridão, todos num só. E por estes, a fome e mudez de muita gente.
Eu nasci ao contrário, com os pés virados para a lua e a cabeça para o ventre.
enquanto crescia, de luvas na mão, corria de costas e ainda hoje ando ao revés.
As palavras escrevo-as da esquerda para a direita, enquanto a minha arabidade me obriga ao inverso.
O meu nome foi escolhido às cegas disso.
Desde o primeiro dia em que falei e disse "Rei", que tudo o que toco se estraga ou morre.
Disse Rei e abracei o meu pai. Não que eu me recorde de tal ditame, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Repeti "Rei" e acrescentei balbuciando "Midas", e o meu abraço fez o meu pai frio e roxo. Os olhos tornaram-se cristal negro.
Gritou-se "rei morto, Rei posto", Não que eu me recorde de tal ditame, apenas mo contaram mais tarde, por vezes incontáveis, tanto que hoje não o suporto ouvir.
Eu fui assim rei. eu sou assim rei. o Rei Sadim, aquele que mata o vivo em que toca e que estraga a comida em que toca.
É este o meu dom, tornar o mundo um local enjoado e enojado.
É este o meu dom, não sentir o toque da minha rainha.
É este o meu dom, não sentir o pelo dos meus cães.
É este o meu dom, não sentir com as mãos, e ser cego mesmo vendo.
É este o meu fado, um mouro encantado, que pouco tem de encanto.
É este o meu fado, ser Midas ao contrário
"Nem tudo o que reluz é ouro"
http://www.youtube.com/watch?v=AhxVx8fskMo
sábado, 9 de julho de 2011
Ela não ri(a)
Dois pés, defendidos por sandálias rosa, desciam calmamente a rua. Suportavam o peso leve de um corpo bamboleante e belo.
O cabelo em tons de escarlate era como um pêndulo ao passo de cada passo.
O seu vestido florido, fresco dava a ideia de um ameno amanhecer, aos sons da Natureza. O braços longilíneos ao tronco e aos passos suavizavam a sua passagem.
"Ora ali vai uma bela mulher", diziam em volta vozes masculinas e femininas. Eles desejavam-na, elas desejavam ser ela.
Ela, despreocupadamente, fazia que não entendia a origem desse desejo.
Os outros não sabiam o fardo que ela carregava: o de não sorrir.
Ela não sorria, mesmo quando encontrava algo ou alguém com piada. Ela escondia esse facto do mundo, daquele que outrora foi o seu mundo.
Antes ela teve amigos, que não soube manter. Antes ela teve namorado, que não acreditou ter.
Ela escondia a ausência de sorriso com lamentos e amuos.
Aos falsos sentimentos expressados dissimulava-os com aparência.
Por esconder o não sorriso começou a obcecar-se com o corpo, com o ginásio. Queria parecer de bem com a vida a si mesma. A crença na compreensão perdeu-a quando ao se defender os perdia.
A sua sala, sempre cheia de solitude, era um ginásio improvisado.
O dinheiro que ganhava no call-center desperdiçava em veleidades vaidosas. Hoje uns sapatos caros, amanhã um vestido ainda mais caro, ontem um fato provocante.
Quase toda ela era elegência, porém o infeliz segredo escondido por detrás de negras e falsas emoções cauterizaram-lhe a personalidade.
Porém, nem sempre fora assim. Houve um tempo longíquo onde o riso aparecera e fertilizava em sua volta.
Esses dias cessaram algum dia. Num dia em que as lágrimas lhe jorraram pelos olhos, e cairam pelas faces, queixo, algumas descendo o pescoço até ao peito.
Esse dia foi o da separação. A separação da sua irmã siamesa.
Ao ser-lhe arrancado meio-ser também lhe arrancaram o riso, sem porém lhe terem arrancado a felicidade. Apenas deixou de a saber expressar.
Quando pela primeira vez não riu chorou, chorou durante três dias e quatro noites até se ter esquecido do que lhe caíra no goto.
Quando esqueceu percebeu que a alegria e a felicidade lhe iriam passar ao lado, lhe teriam que passar ao lado.
Decidiu deixar de ser feliz. A felicidade não partilhada era assim acessória.
Hoje, ao descer a rua, tinha isso como certo.
Hoje, enquanto descia a rua, parou. Parou à escuta do que diziam em sussurro e ouviu.
Hoje ouviu com orgulho e não com indiferença.
Voltou a sentir o desejo secreto de sorriso, e tentou soltar o sorriso, mas não conseguiu, mas pouco se importou. Estava efectivamente contente com o desejo caprichosos dos homens e com o desdém das mulheres.
Decidiu-se.
Chegou a casa.
Chamou pela irmã decepada.
Decepou-lhe um dedo, lambeu um pouco do sangue derramado pela tábua de cozinha e sorriu, e riu, e riu por todos os dias em que não riu.
"Quem teme o sofrimento sofre já aquilo que teme." - Michel de Montaigne
http://www.youtube.com/watch?v=WQ0NBKqQ4ys
O cabelo em tons de escarlate era como um pêndulo ao passo de cada passo.
O seu vestido florido, fresco dava a ideia de um ameno amanhecer, aos sons da Natureza. O braços longilíneos ao tronco e aos passos suavizavam a sua passagem.
"Ora ali vai uma bela mulher", diziam em volta vozes masculinas e femininas. Eles desejavam-na, elas desejavam ser ela.
Ela, despreocupadamente, fazia que não entendia a origem desse desejo.
Os outros não sabiam o fardo que ela carregava: o de não sorrir.
Ela não sorria, mesmo quando encontrava algo ou alguém com piada. Ela escondia esse facto do mundo, daquele que outrora foi o seu mundo.
Antes ela teve amigos, que não soube manter. Antes ela teve namorado, que não acreditou ter.
Ela escondia a ausência de sorriso com lamentos e amuos.
Aos falsos sentimentos expressados dissimulava-os com aparência.
Por esconder o não sorriso começou a obcecar-se com o corpo, com o ginásio. Queria parecer de bem com a vida a si mesma. A crença na compreensão perdeu-a quando ao se defender os perdia.
A sua sala, sempre cheia de solitude, era um ginásio improvisado.
O dinheiro que ganhava no call-center desperdiçava em veleidades vaidosas. Hoje uns sapatos caros, amanhã um vestido ainda mais caro, ontem um fato provocante.
Quase toda ela era elegência, porém o infeliz segredo escondido por detrás de negras e falsas emoções cauterizaram-lhe a personalidade.
Porém, nem sempre fora assim. Houve um tempo longíquo onde o riso aparecera e fertilizava em sua volta.
Esses dias cessaram algum dia. Num dia em que as lágrimas lhe jorraram pelos olhos, e cairam pelas faces, queixo, algumas descendo o pescoço até ao peito.
Esse dia foi o da separação. A separação da sua irmã siamesa.
Ao ser-lhe arrancado meio-ser também lhe arrancaram o riso, sem porém lhe terem arrancado a felicidade. Apenas deixou de a saber expressar.
Quando pela primeira vez não riu chorou, chorou durante três dias e quatro noites até se ter esquecido do que lhe caíra no goto.
Quando esqueceu percebeu que a alegria e a felicidade lhe iriam passar ao lado, lhe teriam que passar ao lado.
Decidiu deixar de ser feliz. A felicidade não partilhada era assim acessória.
Hoje, ao descer a rua, tinha isso como certo.
Hoje, enquanto descia a rua, parou. Parou à escuta do que diziam em sussurro e ouviu.
Hoje ouviu com orgulho e não com indiferença.
Voltou a sentir o desejo secreto de sorriso, e tentou soltar o sorriso, mas não conseguiu, mas pouco se importou. Estava efectivamente contente com o desejo caprichosos dos homens e com o desdém das mulheres.
Decidiu-se.
Chegou a casa.
Chamou pela irmã decepada.
Decepou-lhe um dedo, lambeu um pouco do sangue derramado pela tábua de cozinha e sorriu, e riu, e riu por todos os dias em que não riu.
"Quem teme o sofrimento sofre já aquilo que teme." - Michel de Montaigne
http://www.youtube.com/watch?v=WQ0NBKqQ4ys
sexta-feira, 17 de junho de 2011
por ti
Olhei na poça de água e vi no seu reflexo uma figura pálida e de rosto encovado. Era eu. Eu sabia, sabia porque de cada vez que lavava a cara, de cada vez que fazia diariamente a barba, ou lavava os dentes, ou ajeitava o nó da gravata, lá estava ela, aquela figura e não outra. E não podia ser mais ninguém que não eu, eu, solitário.
A cada passo que dava sentia o frio entrar-me pelo cano das calças de linho amarrotado.
Era fim de Outubro. Os dias ainda iam quentes, mas os entardeceres arrefeciam. Ficava a pensar sobre as noites frias do deserto do Sahara, e pensar como lá poderia eu viver. O mesmo clima e a mesma solidão deste final de Outubro.
Os candeeiros laranjas-foscos já iluminavam o meu caminho e encovavam ainda mais o meu rosto.
Eu ia de encontro a ti.
As pedras das calçadas sabia-as de cor, as esquinas foram tanta vez dobradas por mim, que se se mexessem um milésimo de milímetro de cada vez que eu passasse, não eram mais que uma fima parede de papel.
A tua casa era ali, já ali. Ali e abandonada, decadente e arruinada.
O teu cabelo era o cabelo da Rapunzel, mas verde. Eu via o teu cabelo pendente da varanda breve.
Era verde como uma hera.
Ao velo os meus dentes ralos e transparentes mostravam-se. Os lábios agora sorridentes enchiam-me as maçãs dos rosto e os olhos brilhavam como que defronte de um candeeiro a óleo.
O teu cabelo era de facto uma planta que invadira a casa e caía agora pela varanda.
Eu sabia-o, eu não era tolo, mas esta imaginária era tudo o que me restava de lembrança de gentes.
Eu era o último dos homens vivos, e apenas dos teus cabelos vivia e ganhava cor.
Adormecia ali, até que a lembrança do espelho me acordava do meu torpor
A cada passo que dava sentia o frio entrar-me pelo cano das calças de linho amarrotado.
Era fim de Outubro. Os dias ainda iam quentes, mas os entardeceres arrefeciam. Ficava a pensar sobre as noites frias do deserto do Sahara, e pensar como lá poderia eu viver. O mesmo clima e a mesma solidão deste final de Outubro.
Os candeeiros laranjas-foscos já iluminavam o meu caminho e encovavam ainda mais o meu rosto.
Eu ia de encontro a ti.
As pedras das calçadas sabia-as de cor, as esquinas foram tanta vez dobradas por mim, que se se mexessem um milésimo de milímetro de cada vez que eu passasse, não eram mais que uma fima parede de papel.
A tua casa era ali, já ali. Ali e abandonada, decadente e arruinada.
O teu cabelo era o cabelo da Rapunzel, mas verde. Eu via o teu cabelo pendente da varanda breve.
Era verde como uma hera.
Ao velo os meus dentes ralos e transparentes mostravam-se. Os lábios agora sorridentes enchiam-me as maçãs dos rosto e os olhos brilhavam como que defronte de um candeeiro a óleo.
O teu cabelo era de facto uma planta que invadira a casa e caía agora pela varanda.
Eu sabia-o, eu não era tolo, mas esta imaginária era tudo o que me restava de lembrança de gentes.
Eu era o último dos homens vivos, e apenas dos teus cabelos vivia e ganhava cor.
Adormecia ali, até que a lembrança do espelho me acordava do meu torpor
sábado, 11 de junho de 2011
felicidade colossal
Ela queria ver o pôr do sol de alguma protuberância.
A tarde tinha estado perfeita. Um calorzinho entrecortado por entre nortadas frescas. As nuvens no céu estavam alinhadas ao desalinho, numerosas, mas não o suficiente para nublar o dia. O sol, lá se mantinha, para todos, castíssimo.
Ela hoje foi ver o por do sol.
Chegou ao Alto do Cabeço e procurou o melhor assento para se sentar. Uma pedra pareceu-lhe perfeita. Ficou ali sentada, queda.
O vento fazia-lhe dançar o cabelo negro. Os olhos verdes jade estavam constantemente a ser invadido pelo negro do cabelo. A pele morena estava coberta de um casaco de linha, fino, mas não o suficiente para não aquecer.
O sol tornara-se laranja e tornara o alto alaranjado. Os olhos verdes pareciam ainda mais brilhantes com a luz a incidir directamente sobre eles.
Ela está a ver o por do sol.
O risco facial que os lábios lhe davam era agora uma elipse com as pontas viradas para cima. Um sorriso sincero, terno, raro.
A vida era simples, e por vezes, a felicidade ainda mais simples.
Ali estava ela, quase de cócoras, as mãos cruzadas à frente dos joelhos, as costas arqueadas, um sorriso na cara e o cabelo ao vento.
O sol era agora o seu epílogo. O laranja tornava-se cada vez mais em carmesim, colorindo a natureza em volta dela. As sombras agigantavam-se e tudo se tornava num mundo de colossos.
Ela hoje viu o por do sol.
A luz do dia ainda persistia, mas o sol já tinha desaparecido ao largo.
Ela levantou-se e o seu sorriso abriu-se mais um pouco. Levantou-se de um pulo e reparou que estava um papel pequeno debaixo de uma pedra. Nele a inscrição: eu vi-te. amanhã, mesmo lugar, mesma hora?
Ela pegou o papel, guardou no bolso detrás das calças e deu ainda mais vento ao cabelo no feliz caminho até casa.
"A felicidade não é fruto da paz, é a própria paz." - Émile-Auguste Chartrier
http://www.youtube.com/watch?v=vjncyiuwwXQ&feature=share
A tarde tinha estado perfeita. Um calorzinho entrecortado por entre nortadas frescas. As nuvens no céu estavam alinhadas ao desalinho, numerosas, mas não o suficiente para nublar o dia. O sol, lá se mantinha, para todos, castíssimo.
Ela hoje foi ver o por do sol.
Chegou ao Alto do Cabeço e procurou o melhor assento para se sentar. Uma pedra pareceu-lhe perfeita. Ficou ali sentada, queda.
O vento fazia-lhe dançar o cabelo negro. Os olhos verdes jade estavam constantemente a ser invadido pelo negro do cabelo. A pele morena estava coberta de um casaco de linha, fino, mas não o suficiente para não aquecer.
O sol tornara-se laranja e tornara o alto alaranjado. Os olhos verdes pareciam ainda mais brilhantes com a luz a incidir directamente sobre eles.
Ela está a ver o por do sol.
O risco facial que os lábios lhe davam era agora uma elipse com as pontas viradas para cima. Um sorriso sincero, terno, raro.
A vida era simples, e por vezes, a felicidade ainda mais simples.
Ali estava ela, quase de cócoras, as mãos cruzadas à frente dos joelhos, as costas arqueadas, um sorriso na cara e o cabelo ao vento.
O sol era agora o seu epílogo. O laranja tornava-se cada vez mais em carmesim, colorindo a natureza em volta dela. As sombras agigantavam-se e tudo se tornava num mundo de colossos.
Ela hoje viu o por do sol.
A luz do dia ainda persistia, mas o sol já tinha desaparecido ao largo.
Ela levantou-se e o seu sorriso abriu-se mais um pouco. Levantou-se de um pulo e reparou que estava um papel pequeno debaixo de uma pedra. Nele a inscrição: eu vi-te. amanhã, mesmo lugar, mesma hora?
Ela pegou o papel, guardou no bolso detrás das calças e deu ainda mais vento ao cabelo no feliz caminho até casa.
"A felicidade não é fruto da paz, é a própria paz." - Émile-Auguste Chartrier
http://www.youtube.com/watch?v=vjncyiuwwXQ&feature=share
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