quarta-feira, 22 de agosto de 2012
A Evocação
Tu és o prometido, o meu sucessor magnânimo.
Da escuridão nascerás e na escuridão reinarás.
Os teus súbditos, ralé humana, ajoelhar-se-ão a teus pés, pedir-te-ão misericórdia. Pedir-te-ão morte ao sofrimento.
Tu, sentenciador-mor da escravidão, facilmente renunciarás, pois no teu reino não há indulgências.
Filho adorado, sangue do meu demoníaco sangue, o teu olhar matará de temor todos aqueles que de ti se aproximarem.
O ódio e o escárnio toldar-te-ão as feições e a sombra será a tua fiel companheira. A tua espada não conhecerá outro temperamento que não o do sadismo, do prazer absoluto da dor.
Os teus escudeiros serão corpos sem alma. A alma que tu lhes sugaste enquanto sorrias ameaçadoramente.
Tu, Messias invertido e perverso, não deixarás que ninguém te traia por dinheiro algum, pois tu serás o cúmulo do mal.
Oh Príncipe Tenebroso, liberta-te do submundo em que te encontras recebendo o sangue de este carneiro velho sacrificado.
Que Belzebu te proteja!
Nasceu.
Uma criança morena e de olhos inteiramente negros emerge do solo florestal de ciprestes. Solta já um sorriso maldoso e mostra dentição pontiaguda de carniceiro.
Um Trovão é o prelúdio da Idade das Trevas
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Confissão
Estranharão se eu disser que me encontro enclausurado. Não enclausurado de uma maneira lírica, senão real. A minha morada nestes últimos dias tem sido a prisão, tenho visto o sol nascer aos quadradinhos. E se me perguntarem porquê, eu sei a resposta, só não sei a causa da resposta.
Certo dia, um fim-de-semana pelo que consigo lembrar, dou por mim com a boca a saber-me a algo férreo. Ainda sentia algum calor, mas não ardor ou dor na boca. Senti o pescoço como que a prender, como se lama tivesse secado nele.
Atarantado corri ao espelho mais próximo (casa-de-banho) e olhei-me.
Reconheci nela a minha cara disfarçada de rubro. Um vermelho vivo na boca, um vermelho seco no pescoço e um vermelho desbotado na T-shirt branca.
Estranhei o sangue. Despi-me. Procurei ferimentos, golpes, pelos de animais no meu corpo. Nada notei.
Mas este cheiro a sangue fresco reforçava-me a adrenalina, como um desporto radical.
Tentando, racionalmente, perceber o que se passava e não em tripar, reolhei o espelho e vejo uma aura no meu olhar que nunca outrora tinha visto. Entre raiva, paixão e excitação notei o brilho dos meus olhos.
De uma forma irracional e nervosa voltei onde me tinha despertado do transe. De um modo coerente analisei o que me murava.
Toda a sala-de-estar estava agora pintada a sangue. Mas mal pintada. Manchas desordenadas e salpicadas. Uma repartição abstracta, como se o Kadinsky estivesse a pintar embriagado.
A alcativa continuava gloriosa no seu negro imparcial, mas a cada pisadela deixava escorrer líquido vermelho.
A minha imagem ao espelho voltou-me à memória. Nauseado pelo cheiro e pela cor dei meia-volta para tentar encontrar a porta de fuga por onde um raio de luz ténue entrava.
Com a meia volta fugaz quase completa tropeço em algo. Olho para baixo e espanto-me com...
Alguém tapou a luz ténue. Rodam a maçaneta. O pânico. O meu pânico! Não sei que fazer, não sei o que fiz!
Tinha a porta ao trinco, deixei-a assim quando voltei do café depois de almoço.
Eles entraram, fardados e de vivaque.
Era a polícia.
Sem perguntas agarraram-me, algemaram-me e eu nada disse. Nada sabia.
Com nojo taparam a boca e desviaram o olhar.
Já eu sentia-me esfomeado. De carne crua e bem fresca. Senti os pelos dos braços eriçarem-se.
Uma força que desconhecia tomou posse de mim. Voltei-me para o polícia nº1, com as mãos atrás das costas, algemadas, e dei-lhe um pontapé que o derrubou. Manietado ataquei-lhe o pescoço com a boca bem aberta.
Infelizmente uma pancada foi sentida no meu flanco esquerdo, quando eu estava a meros centímetros de uma jugular pulante.
Retesei-me em dor, desmaiei e acordei hoje de onde vos escrevo.
Estou preso porque comi o meu irmão.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Doutra Luz
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
O abre-cartas
Clientes aparecem, alguns deles serão roubados por carteiristas com ar de chulos e terão de pedir nas ruas para pagarem o táxi da vergonha, que os conduzirá até casa, cúmplice do adultério.
Na casa deste Cliente o pior da sociedade. Um casal que não se ama, uma criança que do mimo cresce e vítima de esforço conjugal se acha. Um Cliente fixo e uma frígida permanente.
Se na esquina dos tormentos os urros e gargalhadas forçadas dão luz a uns fracos candeeiros, aqui, a luz forte escurece os semblantes carregados e distantes.
Na esquina o Cliente é um cliente, apenas mais um a gastar uns trocos numa fornicação fria e sem nomes. Em casa o Cliente é o inimigo a abater, que não se pode abater porque as regras assim o exigem. Há contas a pagar, um colégio privado a engordar e uma criança a oscular falsamente.
Na esquina todos são iguais, apenas mais uns trastes esquecidos que nem pela polícia são lembrados, a não ser quando o Estado resolve mostrar serviço e servidão.
Na esquina as regras e leis baseiam-se no dinheiro, pancada e fétido álcool. Impera a lei do"deixa ver até onde a corda estica".
No táxi culpado a cabeça sai do escuro e distante orgasmo e entra no modo de próximo afastamento. Ele pensa que nada na vida dele corre bem e apalpa algo no bolso. Sente um abre-cartas que pouco cautelosamente guardou no bolso do blazer de design parisiense.
A vida continuava a parecer-lhe como um corredor de morte, onde a porta de luz ao fundo lhe indica um caminho mortificante.
Retirou lentamente o abre-cartas do bolso. O Cliente tinha agora um pequeno reflexo laranja na lâmina e o punho direito cerrado ao ponto de os nós dos dedos se terem tornado brancos.
Um sorriso maquiavélico e final apareceu-lhe na cara ainda levemente transpirada.
Levantou o braço e cortou a garganta do taxista. Accionou o travão de mão com a mão esquerda
Na esquina continuava a vida porca e decrépita e na casa o silêncio enganador.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Fim de Tarde
Olhei para ti naquele final de tarde, enquanto o Sol descia ávido por descanso.
Tu estavas inerte no solo, o teu peito ondeava calmamente. Eu sentia o sangue a pulsar-me no corpo.
Toda esta paz, todo este silêncio apenas pecado pelo som do vento por entre as árvores e pelo chilrear feliz dos pássaros que esvoaçam perdidamente.
A tua face, rosácea carne, escondia, por debaixo de uma ou outra madeixa de cabelo breu, uma leve impressão de sorriso. Mantinhas os olhos fechados pacificamente e os braços ao longo do tronco. As tuas pernas, meio dobradas, davam-te o ar de criança mimada pelo sono e embalada pela segurança paternal.
Tudo era belo, luminoso, calmo
Olhei para a tua letargia respirando violentamente, com os punhos cerrados e apertados fazendo pálidos os nós dos dedos. Na boca os dentes rangiam-me e nos olhos o vermelho ia ganhando ao branco.
Olhei para ti e pensei “Apetece-me dar-te pontapés na cabeça até ver o teu sangue tingir o chão de escarlate.”
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Sorrindo à Chuva
Li "Gosto de pessoas que sorriem quando chove".
Eu não sei que género de pessoa sou eu e as minhas semelhantes que sorriem quando sentem água celestial a respingar na cabeça, mas sei definitivamente que não somos aqueles seres encolhidos e negros que se encolhem por debaixo de um guarda-chuva, ou de um casaco disforme em cima de um tronco descabeçado momentaneamente.
Não sei se somos mais ou menos felizes do que esses que fogem de água mole, mas certamente seremos mais senhores dos sentidos e também do Ego. Só egoístas (e tolos) não imitam a maioria e, neste caso, não fogem da água inofensiva e Viva, tal como só os egoístas (e tolos) esperam por Godot ou não se lamentam da chuva que cai, ou do calor que faz, nem sequer do curto salário que recebem.
Se sorrimos com a chuva, haverá razão para lamentarmos a falta de sorte? Não, porque nós, os egoístas e tolos que sorrimos à chuva, estamos mais preocupados em ser felizes e proporcionar felicidade do que cacicar em cantos e recantos de cidade escura.
Nós, os que sorrimos com a chuva e com o vento que entre de rompante pelo vidro detrás do carro e que nos faz fechar os olhos, preocupamo-nos constantemente com o nosso sorriso e com o sorriso do outro.
É por isso que somos gozados, admirados, invejados e ostracizados.
É por isto que sorrimos à chuva, porque sabemos porque estamos a Sorrir na chuva.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Ceifar no Vazio
Gosto sempre de voltar quando ela está vazia, o que não acontece no Natal e em Agosto.
Gosto sempre de voltar quando o ritmo dos meus passos viola abruptamente o silvo mudo da desertificação.
Mas nesta noite fria e deserta não estou sozinho nas ruas empedradas da minha terra. Nas três ruas da minha terra.
Ela perscruta-me por todo e de todo o lado.
Sei-A a espiar-me.
Ao enésimo dobrar de esquina na rua 2 encontro o brilho morto dos seus olhos e a ponta afiada da sua foice.
Vai-me ceifar...