É sexta-feira, e ao contrário da maioria do futuros mortos que me rodeiam, não tenho vontade de convívio.
Aliás, nem hoje nem ontem nem noutro qualquer dia da semana.
Já fui em tempos um ramboieiro, um Liberace sem desorientação sexual. Hoje sou apenas um gajo que se fica em casa, não escondido nem agorafóbico, apenas me sinto bem em casa, melhor do que em qualquer outro sítio.
Luzes apagadas, televisão apagada. Na verdade a última vez que vi televisão ainda o Carlos Fino estava em Bruxelas.
E não, não sou um freak. Tenho namorada, gosto de cozinhar, trabalho como tradutor, tenho amigos mas faço tudo às escuras.
Na verdade desde 1997 que não vejo nenhuma luz dentro de casa.
Na verdade, queimaram-me a cara num assalto e fiquei cego em 1997
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Sinais de Fogo
Naquele dia quente de Outono, prenúncio de morte. Ou seria de vida? É que isto do fogo nunca se percebe, é como o amor, como dizia Camões, ora amargo ora doce.
Ao longe, após um cabeço de Terra, via-se emergir uma cinta vertical de fumo nem negro nem branco.
Pasto diziam os mais velhos, vapor, diriam os que não conhecem a zona e presumem que o pouca terra chega a todo o lado.
Curioso e desocupado agarro no furgão e vou até onde der. Tenho descobrir o que é aquilo, só para saber, sem utilidade alguma.
Subo montes e vales de ramos secos que se torcem e partem sob o peso escuro sujo dos pneus.
Chego ao alto e procuro. Aguço a visão em 360 graus e aos 197 encontro o foco do fogo: uns putos assam uma lebre gigante, com mais de um metro de comprimento. Tiveram de mandar a baixo um eucalipto e queimá-lo.
Faço-me notar e buzino. Os miúdos ficam contentes por me ver e chamam-me.
Encontramo-nos a meio do caminho e eles querem que eu traga mais gente para comer e batatas cozidas.
Ao longe, após um cabeço de Terra, via-se emergir uma cinta vertical de fumo nem negro nem branco.
Pasto diziam os mais velhos, vapor, diriam os que não conhecem a zona e presumem que o pouca terra chega a todo o lado.
Curioso e desocupado agarro no furgão e vou até onde der. Tenho descobrir o que é aquilo, só para saber, sem utilidade alguma.
Subo montes e vales de ramos secos que se torcem e partem sob o peso escuro sujo dos pneus.
Chego ao alto e procuro. Aguço a visão em 360 graus e aos 197 encontro o foco do fogo: uns putos assam uma lebre gigante, com mais de um metro de comprimento. Tiveram de mandar a baixo um eucalipto e queimá-lo.
Faço-me notar e buzino. Os miúdos ficam contentes por me ver e chamam-me.
Encontramo-nos a meio do caminho e eles querem que eu traga mais gente para comer e batatas cozidas.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Vespas e Lambretas
Hoje, ao quarto dia de férias e após um tardio pequeno almoço e uma leitura clássica, agarro na pena, como o não fazia há quase um ano.
Nem sei do que escrevo nem o que escrevo, mas uma vontade inaudita de talhar texto apoderou-se de mim.
Sem arte e definitivamente sem engenho, a escrita tem sido uma boa e presente companheira, embora esquecida desde o início do ano.
Desde esse tempo tornado mais curriqueiro, mais normal.
A imaginação estagnou, o convívio desceu, a amargura por vezes ganhou e o tempo... o tempo urge.
Encontro-me tanta vez a lamentar isto e aquilo e que não tenho coisas boas, que as más que me acometem superam e enviesam as primeiras.
Agora, ao som dos pássaros, de lambretas vintage, de turistas e de pratos a entrechocarem com talheres, reparo e lembro que a vida é feita de pequenos nadas.
Entretanto uma vespa namora o resto do galão ao sol.
Nem sei do que escrevo nem o que escrevo, mas uma vontade inaudita de talhar texto apoderou-se de mim.
Sem arte e definitivamente sem engenho, a escrita tem sido uma boa e presente companheira, embora esquecida desde o início do ano.
Desde esse tempo tornado mais curriqueiro, mais normal.
A imaginação estagnou, o convívio desceu, a amargura por vezes ganhou e o tempo... o tempo urge.
Encontro-me tanta vez a lamentar isto e aquilo e que não tenho coisas boas, que as más que me acometem superam e enviesam as primeiras.
Agora, ao som dos pássaros, de lambretas vintage, de turistas e de pratos a entrechocarem com talheres, reparo e lembro que a vida é feita de pequenos nadas.
Entretanto uma vespa namora o resto do galão ao sol.
sábado, 25 de outubro de 2014
O Homem Que Já Foi o Mais Alto do Mundo (Parte I)
António mediu um dia mais de dois metros e meio, sem contar com penteado à punk dos anos 80.
Não era feliz, mas também não era o contrário.
Não tinha namorada mas já tinha tido. Tinha amigos em grande número mas não podia jantar com eles em todo o lado. O tecto de alguns sítios traziam ao de cima a sua claustrofobia.
Vivia sozinho no último andar de um prédio com 8 andares. Todos os dias subia e descia as escadas. Não conseguia utilizar o elevedor.
Trabalhava no aereoporto, a estacionar aviões com as raquetes vermelhas e verdes. Dizia-se que era o melhor a fazê-lo.
Ele era o homem mais alto do mundo.
Numa madrugada de uma terça-feira qualquer acordou com uma grande dor de cabeça. Ao fim de três meses a dor de cabeça ainda não tinha adormecido.
Resolveu ir ao médico.
Aí disseram-lhe - Sr António, por ter andado a viver durante tanto tempo em altas altitudes o seu cérebro não recebeu o oxigénio necessário e acabou por desenvolver o Síndrome de Yeti, ou seja, os seus pelos vão crescer a um ritmo incomensurável, os seus dentes afiar e você vai ganhar um apetite por carne crua, e quiçá por carne humana.
- E isso tem cura?
- Tem.
- E quando podemos começar o tratamento?
- Temos de marcar a consulta com o anestesista
- Anestesista?
- Sim, vamos ter de fazer uma cirurgia
- Mas fico mesmo bom?
A cura era: amputar a cabeça
Não era feliz, mas também não era o contrário.
Não tinha namorada mas já tinha tido. Tinha amigos em grande número mas não podia jantar com eles em todo o lado. O tecto de alguns sítios traziam ao de cima a sua claustrofobia.
Vivia sozinho no último andar de um prédio com 8 andares. Todos os dias subia e descia as escadas. Não conseguia utilizar o elevedor.
Trabalhava no aereoporto, a estacionar aviões com as raquetes vermelhas e verdes. Dizia-se que era o melhor a fazê-lo.
Ele era o homem mais alto do mundo.
Numa madrugada de uma terça-feira qualquer acordou com uma grande dor de cabeça. Ao fim de três meses a dor de cabeça ainda não tinha adormecido.
Resolveu ir ao médico.
Aí disseram-lhe - Sr António, por ter andado a viver durante tanto tempo em altas altitudes o seu cérebro não recebeu o oxigénio necessário e acabou por desenvolver o Síndrome de Yeti, ou seja, os seus pelos vão crescer a um ritmo incomensurável, os seus dentes afiar e você vai ganhar um apetite por carne crua, e quiçá por carne humana.
- E isso tem cura?
- Tem.
- E quando podemos começar o tratamento?
- Temos de marcar a consulta com o anestesista
- Anestesista?
- Sim, vamos ter de fazer uma cirurgia
- Mas fico mesmo bom?
A cura era: amputar a cabeça
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Aguilhotinada em Si
Já não sei às quantas ando. Nem me lembro, tal são os dias
sempre iguais.
Parece que estou numa prisão, vejo a mesma coisa todos os
dias.
De manhã vejo o meu marido a babar-se na almofada. Que linda
maneira de começar o dia. Depois vejo o pacote de cereais da minha filha, o
pacote de leite e a tigela preferida dela.
A seguir vejo o cabelo dela em desalinho e os pés na
almofada, mas a almofada no sítio. É o demónio da miúda que se mexe na cama.
Acordo-a, mando-a lavar os dentes, mando-a comer.
Vejo o frigorífico e o post it que o meu marido lá costuma
deixar, com coisas bonitas. Safa-se sempre da louça por lavar, o palhaço
adorável.
Mala, telemóvel, chaves do carro, chaves de casa. Recado de
compras ao marido na mesa.
Vejo o meu carro suburbano. Preto como sempre. Abro-o. Sento-me. Vejo a janela da cave de todos os dias.
Marcha atrás. Primeira. Em frente, acelera. Rotunda. Passadeira.
Semáforos. Acelera. Via rápida. Pisca á direita. Parque do trabalho.
Saio do carro. O mesmo alcatrão esburacado. Tenho cuidado
com os saltos. Tenho vergonha e medo de cair.
Entro no escritório. Bom dia à mesma secretária dos últimos
três anos.
Vejo os mails. Faço chamadas. Almoço, fumo 4 cigarros por
dia. Bebo 3 cafés. Saio. Faço o mesmo caminho, mas ao contrário. Estaciono no
mesmo sítio.
Janto o que o meu marido terá feito. É claro que tenho de
lavar a loiça. Enquanto ele ajuda com os deveres da miúda.
Sento-me no sofá. Ele senta-se na chaise long do mesmo sofá.
Enquanto eu vejo TV ele lê. Por vezes trocamos de tarefas de ócio.
Perto da meia-noite deitamo-nos. Ele do lado direito da cama,
eu do lado esquerdo. Por vezes fazemos amor.
No outro dia tudo volta ao mesmo.
Mas HOJE fui libertada.
O meu chefe despediu-me
O meu chefe despediu-me
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
QUID PRO QUO
Toda a minha vida odiei o meu irmão.
Sem grandes razões para isso. Não é melhor que eu em nada.
Ontem, para resolver isso visitei uma bruxa.
Às tantas ela disse-me: "de hoje em diante tudo o que tu tiveres o teu irmão há-de ter a dobrar."
Eu saí convencido.
Hoje de manhã arranquei um olho.
Sem grandes razões para isso. Não é melhor que eu em nada.
Ontem, para resolver isso visitei uma bruxa.
Às tantas ela disse-me: "de hoje em diante tudo o que tu tiveres o teu irmão há-de ter a dobrar."
Eu saí convencido.
Hoje de manhã arranquei um olho.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Necrologia
Todos os dias eu tenho um ritual algo lúgubre. Todos os dias leio com atenção a necrologia do jornal.
Os meus amigos zombam de mim por estar a ler aqueles quadradinhos com cruzes. Eu respondo com graça "É só para ver se morri".
Até que hoje eu li o meu nome ali. Não só o meu nome, mas a minha foto.
Faleceu Augusto António Almeida Antunes
Foto
Seus pais, irmão e namorada comunicam
que o seu amado filho e namorado faleceu de doença repentina.
A missa de corpo presente terá lugar
amanhã pelas 16h na Igreja de Sto Estêvão.
Senti um calafrio a percorrer-me a espinha. Eu morri.
E agora ali estava eu, no café, com uma bica a fumegar, um prato sujo de bolo e uma caneca com espuma de uma meia de leite.
Senti movimento atrás de mim. Era o meu amigo Bruno.
- Então Augusto, já soubeste?
- Que morri?
- Sim. Epá e agora?
- Não sei. Ainda agora estava todo contente aqui a ler a bola e a política e depois vejo o meu nome nisto dos mortos.
- É tramado. Os teus pais, como é terão reagido?
- Não sei Bruno. Nem sei como os vou encarar quando os vir.
- Pois. Mas olha, agora que morreste, se achares que eles precisam de alguma coisa é só avisar.
- Obrigado, mas ... Como é que eu falo contigo se estou morto?
- É bem visto. Bem, tenho de ir a casa que a minha irmã quer ir ao teu funeral. Está um caco ela. Gosta muito de ti. Não gostasses tu da Carla e a gente ainda podíamos ter chegado a cunhados.
Bem, mas agora não há nada a fazer.
- Pois. . .
- E tu, vais ao teu funeral?
- Epá, não sei. Devo ir, não é?
- Convém.
- Mas não sei se tenho estômago para ver os meus amigos e a minha família a chorar-me. E muito menos a pobre Carla.
- Então vá. Até logo ou até sempre. Dá cá um abraço. Não é todos os dias que cumprimentamos um morto.
- Pois. . .
Continuo aqui na cadeira. Mortiço. O peso da minha morte carrega-me os ombros.
Um puto acerca-se de mim com os olhos vermelhos e o dedo esticado.
- Estás morto "Guto". Não podes morrer. Eu gosto de ti!
- Mas todos morremos Daniel. E desta vez fui eu.
- Não podes, não podes, não podes.
Tentei chorar, mas as lágrimas não me saiam. Deviam ter secado pela morte.
Não havia mais nada a fazer. Vou para casa e arranjei o melhor fato que tinha.
A minha família já tinha escolhido o caixão e o padre já estava informado.
Esta noite dormi sem que ninguém soubesse que eu estava em casa. A minha respiração já não se faz ouvir e os meus passos não pesam.
A noite passou e hoje decidi não me deitar logo no caixão e esperar só pelo enterro em si.
Quero ver como é que os meus amigos reagem. Ver quantos choram, quantos aparecem, quantos conseguem chegar perto do caixão, quem me carregará até à cova.
Encontro um cantinho onde ninguém me vê e de onde eu vejo tudo.
No final foi uma cerimónia bonita, simples, emocional.
Chegou a hora. A igreja já está quase vazia. Eu saio do meu canto e pela primeira vez toco no meu caixão.
É castanho claro, rijo e frio. O seu interior é em cetim branco e tem uma almofadinha macia.
Deito-me enfim dentro dele. Parece-me confortável para a eternidade.
Fecham-me a tampa e acaba-se.
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