segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Vespas e Lambretas

Hoje, ao quarto dia de férias e após um tardio pequeno almoço e uma leitura clássica, agarro na pena, como o não fazia há quase um ano.
Nem sei do que escrevo nem o que escrevo, mas uma vontade inaudita de talhar texto apoderou-se de mim.
Sem arte e definitivamente sem engenho, a escrita tem sido uma boa e presente companheira, embora esquecida desde o início do ano.
Desde esse tempo tornado mais curriqueiro, mais normal.
A imaginação estagnou, o convívio desceu, a amargura por vezes ganhou e o tempo... o tempo urge.
Encontro-me tanta vez a lamentar isto e aquilo e que não tenho coisas boas, que as más que me acometem superam e enviesam as primeiras.
Agora, ao som dos pássaros, de lambretas vintage, de turistas e de pratos a entrechocarem com talheres, reparo e lembro que a vida é feita de pequenos nadas.
Entretanto uma vespa namora o resto do galão ao sol.

sábado, 25 de outubro de 2014

O Homem Que Já Foi o Mais Alto do Mundo (Parte I)

António mediu um dia mais de dois metros e meio, sem contar com penteado à punk dos anos 80.
Não era feliz, mas também não era o contrário.
Não tinha namorada mas já tinha tido. Tinha amigos em grande número mas não podia jantar com eles em todo o lado. O tecto de alguns sítios traziam ao de cima a sua claustrofobia.
Vivia sozinho no último andar de um prédio com 8 andares. Todos os dias subia e descia as escadas. Não conseguia utilizar o elevedor.
Trabalhava no aereoporto, a estacionar aviões com as raquetes vermelhas e verdes. Dizia-se que era o melhor a fazê-lo.
Ele era o homem mais alto do mundo.

Numa madrugada de uma terça-feira qualquer acordou com uma grande dor de cabeça. Ao fim de três meses a dor de cabeça ainda não tinha adormecido.

Resolveu ir ao médico.

Aí disseram-lhe - Sr António, por ter andado a viver durante tanto tempo em altas altitudes o seu cérebro não recebeu o oxigénio necessário e acabou por desenvolver o Síndrome de Yeti, ou seja, os seus pelos vão crescer a um ritmo incomensurável, os seus dentes afiar e você vai ganhar um apetite por carne crua, e quiçá por carne humana.
- E isso tem cura?
- Tem.
- E quando podemos começar o tratamento?
- Temos de marcar a consulta com o anestesista
- Anestesista?
- Sim, vamos ter de fazer uma cirurgia
- Mas fico mesmo bom?

A cura era: amputar a cabeça

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Aguilhotinada em Si

Já não sei às quantas ando. Nem me lembro, tal são os dias sempre iguais.

Parece que estou numa prisão, vejo a mesma coisa todos os dias.
De manhã vejo o meu marido a babar-se na almofada. Que linda maneira de começar o dia. Depois vejo o pacote de cereais da minha filha, o pacote de leite e a tigela preferida dela.

A seguir vejo o cabelo dela em desalinho e os pés na almofada, mas a almofada no sítio. É o demónio da miúda que se mexe na cama.
Acordo-a, mando-a lavar os dentes, mando-a comer.

Vejo o frigorífico e o post it que o meu marido lá costuma deixar, com coisas bonitas. Safa-se sempre da louça por lavar, o palhaço adorável.
Mala, telemóvel, chaves do carro, chaves de casa. Recado de compras ao marido na mesa.

Vejo o meu carro suburbano. Preto como sempre. Abro-o. Sento-me. Vejo a janela da cave de todos os dias.
Marcha atrás. Primeira. Em frente, acelera. Rotunda. Passadeira. Semáforos. Acelera. Via rápida. Pisca á direita. Parque do trabalho.

Saio do carro. O mesmo alcatrão esburacado. Tenho cuidado com os saltos. Tenho vergonha e medo de cair.
Entro no escritório. Bom dia à mesma secretária dos últimos três anos.

Vejo os mails. Faço chamadas. Almoço, fumo 4 cigarros por dia. Bebo 3 cafés. Saio. Faço o mesmo caminho, mas ao contrário. Estaciono no mesmo sítio.
Janto o que o meu marido terá feito. É claro que tenho de lavar a loiça. Enquanto ele ajuda com os deveres da miúda.
Sento-me no sofá. Ele senta-se na chaise long do mesmo sofá. Enquanto eu vejo TV ele lê. Por vezes trocamos de tarefas de ócio.

Perto da meia-noite deitamo-nos. Ele do lado direito da cama, eu do lado esquerdo. Por vezes fazemos amor.
No outro dia tudo volta ao mesmo.

Mas HOJE fui libertada.

O meu chefe despediu-me


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

QUID PRO QUO

Toda a minha vida odiei o meu irmão.
Sem grandes razões para isso. Não é melhor que eu em nada.

Ontem, para resolver isso visitei uma bruxa.
Às tantas ela disse-me: "de hoje em diante tudo o que tu tiveres o teu irmão há-de ter a dobrar."

Eu saí convencido.

Hoje de manhã arranquei um olho.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Necrologia


Todos os dias eu tenho um ritual algo lúgubre. Todos os dias leio com atenção a necrologia do jornal.
Os meus amigos zombam de mim por estar a ler aqueles quadradinhos com cruzes. Eu respondo com graça "É só para ver se morri".
Até que hoje eu li o meu nome ali. Não só o meu nome, mas a minha foto.

Faleceu Augusto António Almeida Antunes
 Foto
Seus pais, irmão e namorada comunicam
que o seu amado filho e namorado faleceu de doença repentina.
A missa de corpo presente terá lugar
amanhã pelas 16h na Igreja de Sto Estêvão.

Senti um calafrio a percorrer-me a espinha. Eu morri.
E agora ali estava eu, no café, com uma bica a fumegar, um prato sujo de bolo e uma caneca com espuma de uma meia de leite.
Senti movimento atrás de mim. Era o meu amigo Bruno.
- Então Augusto, já soubeste?
- Que morri?
- Sim. Epá e agora?
- Não sei. Ainda agora estava todo contente aqui a ler a bola e a política e depois vejo o meu nome nisto dos mortos.
- É tramado. Os teus pais, como é terão reagido?
- Não sei Bruno. Nem sei como os vou encarar quando os vir.
- Pois. Mas olha, agora que morreste, se achares que eles precisam de alguma coisa é só avisar.
- Obrigado, mas ... Como é que eu falo contigo se estou morto?
- É bem visto. Bem, tenho de ir a casa que a minha irmã quer ir ao teu funeral. Está um caco ela. Gosta muito de ti. Não gostasses tu da Carla e a gente ainda podíamos ter chegado a cunhados.
Bem, mas agora não há nada a fazer. 
- Pois. . .
- E tu, vais ao teu funeral?
- Epá, não sei. Devo ir, não é?
- Convém.
- Mas não sei se tenho estômago para ver os meus amigos e a minha família a chorar-me. E muito menos a pobre Carla.
- Então vá. Até logo ou até sempre. Dá cá um abraço. Não é todos os dias que cumprimentamos um morto.
- Pois. . .

Continuo aqui na cadeira. Mortiço. O peso da minha morte carrega-me os ombros.
Um puto acerca-se de mim com os olhos vermelhos e o dedo esticado.
- Estás morto "Guto". Não podes morrer. Eu gosto de ti!
- Mas todos morremos Daniel. E desta vez fui eu.
- Não podes, não podes, não podes.

Tentei chorar, mas as lágrimas não me saiam. Deviam ter secado pela morte.

Não havia mais nada a fazer. Vou para casa e arranjei o melhor fato que tinha.
A minha família já tinha escolhido o caixão e o padre já estava informado.
Esta noite dormi sem que ninguém soubesse que eu estava em casa. A minha respiração já não se faz ouvir e os meus passos não pesam.

A noite passou e hoje decidi não me deitar logo no caixão e esperar só pelo enterro em si.
Quero ver como é que os meus amigos reagem. Ver quantos choram, quantos aparecem, quantos conseguem chegar perto do caixão, quem me carregará até à cova.
Encontro um cantinho onde ninguém me vê e de onde eu vejo tudo.
No final foi uma cerimónia bonita, simples, emocional.
Chegou a hora. A igreja já está quase vazia. Eu saio do meu canto e pela primeira vez toco no meu caixão.
É castanho claro, rijo e frio. O seu interior é em cetim branco e tem uma almofadinha macia.
Deito-me enfim dentro dele. Parece-me confortável para a eternidade.
Fecham-me a tampa e acaba-se.