segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Memórias


Hoje, ao deitar, recordei-me dele.

Ainda que o tivesse visto apenas por alguns segundos retive tanto dele!

Tinha rugas de velhice, nariz e orelhas de velho.

Os nós dos dedos eram grossos, como se o cálcio tivesse encontrado ali um sítio para prosperar.

A sua voz rouca, calma, vivida, paternal. Era a voz segura de quem já teve demasiadas certezas na vida para continuar certo acerta de tudo.

Os seus passos eram fortes e incertos. Uma certa rigidez nos joelhos.

Envergava uma roupa escura. Demasiado escura para a época. Talvez estivesse de luto.

Calçava botas mexicanas, carregadas de lama. Hortelão presumi eu.

Chegado ao pé de mim disse, muito clara e sincopadamente: dá-me o telemóvel e a carteira seu badameco ou dou-te um tiro!

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